À conversa com Tiago Lopes, treinador de Judo do Vitória

Categorias: Judo,Modalidades


Tiago Lopes

Tiago Lopes, actual treinador de Judo do Vitória Futebol Clube, esteve à conversa connosco. Ficámos a conhecê-lo um pouco melhor.

Nome Completo: Tiago João Correia Lopes
Data de Nascimento: 27-5-1985
Localidade: Tomar
Modalidade: Judo

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Tiago, como apareceu o Judo na sua vida?
Comecei a ver judo através do meu irmão e do meu primo que eram e são praticantes. Aliás, o meu irmão também é treinador, na cidade onde nascemos e crescemos: Tomar. E então, pelo que me lembro, por vezes descalçava os sapatos e ia para cima do tapete, enquanto o meu irmão treinava. Lembro-me do meu primeiro treinador me incentivar imenso, mas só aos 10 anos é que comecei a praticar mais regularmente.

 

Porquê o Judo e não Karaté ou Aikido?
Em primeiro lugar, porque, como já disse, o meu irmão também é Judoca. Para além disso, como todas as crianças eu adorava lutar. Especialmente com o meu irmão e meus primos. E, cresci a ver os filmes e desenhos animados de artes marciais na televisão (Karate Kid, Rocky, Bruce Lee, Dragon Ball, entre outros, que tanto sucesso fizeram na altura), em que movimentos de outras artes marciais estavam sempre presentes (karaté, boxe, kickboxing, etc). Na verdade, nenhum deles abordava o Judo. Se calhar, por isso é que acabei por achar piada ao judo. Porque era diferente do que normalmente via, porque era super exigente e complexa, mas ao mesmo tempo também era um desporto de combate.

 

É treinador de Judo no VFC há quanto tempo?
Sou treinador do VFC desde Julho de 2012.

 

Para além de ensinar uma arte marcial sente que tem uma obrigação pedagógica para com os mais novos?
Claro. Eu encaro o meu trabalho como uma ferramenta para a Educação dos Jovens. Se não conseguirmos formar boas pessoas, dificilmente vamos conseguir formar bons judocas e atletas. Para além disso, a modalidade em si, transporta em todo o seu processo de ensino-aprendizagem uma série de valores que muitas vezes são esquecidas na sociedade atual. E esses valores, muitas vezes não são ensinados só com “raspanetes” e disciplina militar instruída pelo “mestre”. Mas sim, pelas obrigações que a modalidade vai exigindo para nos tornarmos melhores judocas, pelos pequenos objetivos que se vão colocando diariamente no treino, para alcançarmos grandes metas no futuro. Para além disso, o simples facto de ser necessário uma roupa diferente que deve estar limpa, um cinturão colorido de acordo com o nível do praticante, uma saudação sempre que aprendemos ou lutamos com alguém, o cumprir de regras que delimitam padrões de conduta, diz muita coisa da própria modalidade. Já para não falar, da disciplina e organização que a vida de um atleta-judoca exige: desde controlar a alimentação para entrar numa determinada categoria de peso, treinar a condição física para melhorar a performance, treinar a técnica para melhorar a eficiência dos movimentos, treinar a táctica para resolver problemas de forma mais eficaz, descansar o suficiente para conseguirmos cumprir objetivos, organizarmos todas as atividades/treinos/vida académica/vida pessoal, recuperar de lesões que no judo podem ser em qualquer articulação (ombro, joelho, cotovelo, coluna, dedos,etc) ou músculo do corpo, tudo isto para conseguirmos decidir “em milésimos de segundo” que técnica aplicar de acordo com as diferentes situações que o nosso adversário coloca. Ou seja, o risco de sermos surpreendidos pelo nosso oponente é tão grande, que acredito que o desafio de conseguirmos superar todas as dificuldades nos transforma em melhores cidadãos, melhores pessoas.
Portanto, como ninguém nasce ensinado…Sim, acho que tenho uma grande responsabilidade nas minhas “mãos”!

 

Numa situação de auto-defesa as técnicas de Judo sobrepõem-se à força?
Um Judoca experiente não necessita de utilizar técnicas de judo para se auto-defender. No entanto, sim, a ideia da aplicação da técnica é precisamente aproveitar a força oponente, em nosso proveito.

 

Consegue detectar um atleta com um futuro promissor no Judo ao fim de poucas aulas?
Não. Conseguem-se detectar crianças com níveis de desenvolvimento motor mais avançados que outras, crianças que são mais ágeis, crianças que estão mais predispostas para o desporto que outras. Mas na verdade, os campeões no judo não são só os mais ágeis, ou os mais fortes, ou os mais rápidos. Até porque as crianças e jovens têm ritmos de crescimento e maturação completamente diferentes umas das outras. O Judo é uma modalidade tão complexa, que muitas das vezes só as horas de treino que esses atletas dedicam à melhoria das suas capacidades, é que vão definir a longo prazo se vai ser ou não um Atleta de alta-competição. Ou seja, só a determinação e persistência dos atletas é que farão com que eles obtenham rendimentos de excelência no futuro. E, isso sim, nem todos têm, e vai modificando de acordo com os gostos, exemplos e objectivos que a criança/jovem vai colocando e observando ao longo do seu crescimento.
Por outro lado, se me perguntar se consigo detectar um atleta que chegue a cinto Negro…sim! Qualquer um!

 

A modalidade tem tido maior adesão nos últimos anos?
Por o que tenho ouvido, aqui em Setúbal, houve um grande crescimento após a Medalha Olímpica do Nuno Delgado, em 2000. E, desde que aqui estou, houve realmente um grande crescimento no número de praticantes na Secção de Judo do Vitória. Neste momento, estamos a passar por uma certa limitação de espaço e de recursos humanos para podermos continuar a crescer de forma mais estável e com maior qualidade de ensino-treino. Agora, se falarmos do crescimento da modalidade no país, sim, sem dúvida. Mas, é normal isso acontecer quando existe mais divulgação a nível de imprensa, quando começam a aparecer novas tendências e abordagens na exploração de clubes/escolas e metodologias de ensino, e algumas instituições governamentais começam a perceber a importância que a modalidade pode ter na modulação do carácter da população criando programas de desenvolvimento da modalidade a nível local. No entanto, ainda há muita coisa a fazer. E, falando no caso específico de Setúbal, que é o que mais me preocupa, pelo que tenho estudado e apercebido, tem um potencial enorme que está a ser subaproveitado, por várias razões que me ultrapassam como técnico.

 

Tem uma opinião formada sobre o recente “boom” da MMA (Mixed Martial Arts)?
Tenho. Acho interessante. É um conceito diferente. E, é curioso que muitos dos melhores lutadores de MMA foram Judocas de alta competição!

 

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